sábado, 28 de fevereiro de 2009

A poesia com cheiro de tangerina

Considero Ferreira Gullar a expressão viva de nossa poesia maior, de uma poesia brasileira, latino-americana. A tradução de uma universalidade latente no nosso cotidiano, "na nossa vida de marginais da história, como outros poetas em seu próprio momento e à sua maneira já o tinham feito", como ele próprio costuma dizer.

A Luta Corporal e o Poema Sujo são duas referências de seu trabalho.

A Luta Corporal escrito entre 1950 e 1953, impresso pelo próprio Gullar na oficina gráfica da revista O Cruzeiro, recebeu esse título por expressar uma época em que o poeta buscava uma identificação com a linguagem, um ideal de que seu nascimento fosse simultâneo ao do poema. E o livro porta essa explosão da linguagem: F. Gullar ansiava transformá-la num corpo vivo, "vivo como seu próprio corpo". O resultado foi a violência da sintaxe e dos vocábulos a ponto do poema ficar quase ilegível, sem deixar de trazer, porém, uma estrutura lúdica.

Por sua destruição das normas, da realidade com normas, pela destruição da linguagem poética, Gullar, de certa maneira, antecipa o movimento que os concretistas buscavam, e foi, por isso, convidado a trabalhar com eles.

Desse aparente fracasso, Gullar começa a rever seus conceitos. E preconceitos. Passa a ressaltar que a poesia se faz de uma realidade inventada, da transformação da experiência interior em linguagem, sem abrir mão, contudo, de uma poesia amarrada à realidade, "entranhada na carne, nos ossos", nos maxilares e costelas. Uma poesia resultado do espanto frente ao cotidiano.

O Poema Sujo surgirá como segundo momento crucial de sua criação, um marco na história da poesia brasileira. Embora tenha sido escrito à época de seu exílio na Argentina, não se trata de um poema político: é antes a expressão de uma situação limite, já que foi escrito como se fosse sua última produção. Como uma descarga. Uma tentativa visceral de resgatar o já vivido, muito mais do que um lamento pelo que havia sido perdido. Ao iniciá-lo, fato inédito, Gullar já escolhera o título e já sabia o volume do poema: de 70 a 100 páginas. Obra de grande intensidade, onde Gullar não foge às aflições de sua consciência da realidade, já que está circundado pelo caos político em toda América Latina, e as circunstâncias eram extremamente negativas quanto às perspectivas de um futuro. E foi deste modo que conseguiu responder às indagações e perplexidades que a vida lhe apresentava naquele difícil momento. F. Gullar diz que este poema tem uma estrutura sinfônica, dissonante e fragmentária, com ausência de pontuação, onde o corpo é o instrumento fundamental na interpretação da tensão entre os contrários, além de ser uma poesia de muitas vozes.

Ferreira Gullar me trouxe, no mínimo, duas lições com sua obra poética: aprendi que o poeta só alcança seus leitores na medida em que se expõe, na medida em que consegue falar de si, traduzir-se, e se fazer confundir com os demais para poder transformar, pelo menos, a si mesmo. Caso contrário, o fazer literário não se sustenta. E a outra lição, que ele passa de sua própria experiência de vida, é a importância da leitura para o processo da escrita, fato que é válido tanto para a prosa como para a poesia. Ou seja, para ser um escritor ou poeta há que se praticar, antes de tudo, a assiduidade da leitura.

Gullar ainda nos faz um convite: retratar a realidade, mas deixando-se levar pelo espanto, pela invenção, pela liberdade, e, principalmente, pela transcendência. Por aquilo que, segundo ele, "espanta e comove".

Iniciamos o ano de 2009 tendo a nosso dispor a edição da Poesia Completa, Teatro e Prosa de Ferreira Gullar. Um verdadeiro presente para quem gosta de ouvir os ruídos da vida, da natureza, da arte e da cultura.

Fecho esse pequeno texto citando parte de O cheiro da tangerina, uma, entre tantas, das minhas poesias favoritas de Gullar, onde as palavras vibram, onde as imagens têm movimento e cor, o poema tem cheiro, o deslocamento tem ritmo.

Rígidos em sua cor
os minerais são apenas
extensão e silêncio.
Nunca se acenderá neles
- em sua massa quase eterna -
um cheiro de tangerina.

Como esse que vaza
agora na sala
vindo de um pequena esfera
de sumo e gomos
e não se decifra nela
inda que a dilacere
e me respingue
o rosto e me lambuze os dedos
feito uma fêmea.

E digo
- tangerina
e a palavra não diz o homem
envolto nesse inesperado delírio
que vivo agora
a domicílio
(de camisa branca
e chinelos
sentado numa poltrona) enquanto
a flora inteira
sonha à minha volta
porque nos vegetais
é que mora o delírio

Um comentário:

Zeca disse...

Daisy,

ouso dizer que me alimentei com seu blog! De Mário de Andrade e Monteiro Lobato a Ferreira Goulart, passando por Borges, com um sopro de Lispector, todos assuntos interessantes e pertinentes para quem gosta de literatura.
Sei que tenho muito a aprender, mas se permitir, buscarei aqui parte desse alimento, para mim, tão necessário.